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NÃO CONSIGO DESLIGAR DO TRABALHO: POR QUE A MENTE CONTINUA TRABALHANDO DEPOIS DO EXPEDIENTE?

Foto do escritor: Rita Galindo
Rita Galindo
28 de set.
4 min de leitura

O computador foi desligado, mas a cabeça segue trabalhando.


Você repassa aquela conversa difícil, ensaia o que vai dizer amanhã, lembra do e-mail que ficou sem resposta. Na hora do jantar ou de deitar, o corpo está em casa, mas a atenção continua no expediente.


Se isso soa familiar, saiba que não é falta de disciplina nem de "saber relaxar". A psicologia do trabalho estuda o fenômeno, e a psicanálise ajuda a entender o que ele significa para cada pessoa.


Não consigo desligar do trabalho. Homem que continua trabalhando mesmo depois do expediente.

O que a ciência chama de ruminação, e o que a psicanálise acrescenta


Na psicologia do trabalho, chama-se ruminação relacionada ao trabalho o padrão de pensamentos repetitivos sobre problemas, erros, conflitos ou tarefas profissionais que surgem no tempo de descanso.


O oposto é o desligamento psicológico: conseguir se afastar mentalmente do trabalho quando o dia termina.


Um estudo com 474 trabalhadores (WEIGELT; GIERER; SYREK, 2019) mostrou que nem todo pensamento sobre o trabalho é igual. Por exemplo, pensar por alguns minutos em como resolver um problema pode ser útil.


Já a ruminação afetiva, carregada de ansiedade, irritação, culpa ou medo, foi a que mais se relacionou ao burnout. E uma meta-análise com mais de 38 mil trabalhadores (WENDSCHE; LOHMANN-HAISLA, 2017) indicou que quem consegue se desligar tende a ter menos exaustão, melhor sono e mais bem-estar.


A psicanálise acrescenta uma pergunta:

Por que esse pensamento insiste em voltar?

Desde Freud, sabemos que aquilo que não encontra lugar para ser dito e elaborado tende a se repetir. O pensamento que volta toda noite é como um recado que ainda não foi compreendido.



Não consigo desligar do trabalho: a voz interna que não deixa você parar


Todos temos dentro de nós uma voz que avalia, compara e cobra. A psicanálise a chama de superego.


Ele não é vilão: é o que nos dá senso de responsabilidade.


O problema começa quando ele fica severo demais e cobra mesmo depois que você fez o suficiente. É a voz do "poderia ter feito melhor", do "e se der errado?", do "não é hora de descansar".


Com um superego assim, descansar vem acompanhado de culpa. E o ambiente alimenta essa voz: um estudo com 282 enfermeiros (PAQUETTE; TREPANIER; MENARD, 2025) mostrou que mais carga de trabalho previu mais ruminação e menos desligamento.


A cultura do "sempre ligado", com o celular no bolso e a expectativa de responder a qualquer hora, mantém o corpo em alerta. Reportagens da BBC descrevem ainda a culpa de quem trabalha por conta própria, para quem cada hora de pausa parece dinheiro perdido.


Repare no detalhe: mesmo quando ninguém está cobrando, a cobrança continua. Ela passou a morar dentro de você.



Quando o trabalho vira o lugar do seu valor


Quando você diz "Não consigo desligar do trabalho", você pode estar fazendo parte de um grupo de muitas pessoas que aprenderam cedo que são reconhecidas pelo que entregam: a que resolve, o que nunca falha, a que dá conta de tudo.


Para a psicanálise, todos queremos ser vistos e valorizados pelo olhar do Outro, isto é, de quem imaginamos que nos avalia, como o chefe, o cliente, a família ou os pais.


Quando o valor pessoal depende dessa entrega, parar pode soar como perder o lugar, decepcionar ou deixar de ser amado.


Em outro artigo sobre perfeccionismo, eu destaco como autocobrança e e autopercepção negativa podem afetar o desempenho do adulto a partir da relação com os pais ainda na infância.


Há também a necessidade de controle diante do que ficou pendente. Sempre sobra algo por fazer, e suportar essa falta é difícil. A mente tenta resolver o que não tem fim. Por isso, o que muitas vezes falta não é só tempo livre, mas a possibilidade de se autorizar a parar.


Vale lembrar que essa é uma leitura clínica, que ajuda a investigar o sentido singular que o trabalho tem para cada pessoa. Os estudos citados acima sustentam os conceitos de ruminação e desligamento, mas não testam essas hipóteses psicanalíticas.



Quando pensar no trabalho vira sinal de esgotamento


Pensar no trabalho depois do expediente, isoladamente, não caracteriza burnout. A síndrome envolve exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e menor sensação de eficácia. O que ajuda a diferenciar é a duração, a intensidade, o sofrimento e a presença desses outros sinais.


Porém, se você ainda tem dúvidas burnout, nesse outro artigo eu trago algumas perguntas que podem te ajudar a identificar a síndrome -- além de estimular seu autoconhecimento.


Se os pensamentos são constantes, atrapalham seu sono, seu lazer e suas relações, e o cansaço não passa com o descanso, é um bom momento para buscar ajuda profissional.



O que pode ajudar: agir e também escutar


Do lado da ação, algumas estratégias costumam ajudar:


  • Não brigar com o pensamento. Tentar "não pensar" à força costuma mantê-lo ativo;

  • Escrever o que ficou pendente antes de encerrar o dia, para tirar da cabeça o que você está "segurando";

  • Direcionar a atenção para algo concreto e planejado, como uma caminhada, uma receita ou um encontro;

  • Criar distância real: silenciar notificações e definir um horário em que você não está disponível.


Do lado da escuta, vale se perguntar sem pressa:


  • De quem é essa cobrança?

  • O que eu temo que aconteça se eu parar?

  • Quando aprendi que descansar era algo a ser merecido?


Essas perguntas não têm resposta rápida, e é aí que a terapia pode ajudar. Ao falar livremente sobre o que pensa e sente, você dá a esse pensamento repetitivo a chance de ser compreendido em vez de apenas repetido. Se esse texto fez sentido para você, não precisa enfrentar isso sozinho.



REFERÊNCIAS


PAQUETTE, Valérie; TRÉPANIER, Stéphanie G.; MÉNARD, Jérôme. Off-work work-related rumination and psychological detachment: the predictive role of workload and need frustration. Motivation and Emotion, 2025. DOI: 10.1007/s11031-025-10122-4. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11031-025-10122-4. Acesso em: 24 set. 2026.


WEIGELT, Oliver; GIERER, Petra; SYREK, Christine J. My mind is working overtime—towards an integrative perspective of psychological detachment, work-related rumination, and work reflection. International Journal of Environmental Research and Public Health, Basel, v. 16, n. 16, p. 2987, 2019. DOI: 10.3390/ijerph16162987. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6719247/. Acesso em: 24 set. 2026.


WENDSCHE, Johannes; LOHMANN-HAISLAH, Andrea. A meta-analysis on antecedents and outcomes of detachment from work. Frontiers in Psychology, Lausanne, v. 7, art. 2072, 2017. DOI: 10.3389/fpsyg.2016.02072. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5233687/. Acesso em: 24 set. 2026.

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